Grandma’s Hands

O título da composição de 1971, de Bill Withers, é extremamente adequado para o post de hoje. Com tudo novo e após bom tempo sem postar, comemoro o retorno uma pauta ótima:
Os 90 anos da minha avó!

90 anos, comemorado no último dia 25

90 anos da Vó, comemorado no último dia 25. (Fotos: Acervo pessoal)

Já escrevi sobre meu avô há algum tempo, o que não foi fácil, ainda mais por ser algo que não  envolve apenas a mim. Por isso, escrevo sobre ela, pois agora sei que os textos sobre a história da minha da minha família estarão completos.  

Agora escrevo sobre outra raíz da nossa árvore genealógica.

Vó em Tramandaí, na década de 1940

Vó toda linda em Tramandaí/RS, em 1948

Nascer apenas 35 anos após a Lei Áurea não deve ter sido fácil. Apesar de morar com minha avó, Dona Darcy da Silva, (chamada carinhosamente de Dona Dora) não tenho noção do que ela passou, pois ouvir é uma coisa, sentir na pele é outra.
Mas fiz o que pude e a entrevistei!
Ela pode não ser uma celebridade, mas desde quando pessoas com história de vida interessante e rica de conteúdo precisam ser famosas?

No 25º dia do mês de agosto do ano de 1923 minha avó nasceu. E com ela já vieram dificuldades. Só que isso não tirou a alegria e vontade de viver, como ela mesma conta abaixo:

Vó: “Nasci no bairro África (chamado agora de Guarani), onde morei até a morte do meu pai. Tinha 10 anos. Ele era pintor e pedreiro e ajudou a construir a escola São João, uma pequena capela onde estudei. Como era muito católico, ele fazia reformas na escola de graça no seu tempo livre. Depois disso, fui para casas de família trabalhar como doméstica”.

Quando completou 14 anos, minha avó, levada por uma prima, foi para Porto Alegre trabalhar na casa dos Bins, onde ganhava o equivalente a R$ 80,00 por mês. O que foi vantajoso, pois, na época, necessitaria pegar e 4 à 5 conduções para ir até o local do emprego. Além disso, se permanecesse em Novo Hamburgo ganharia R$ 20,00.
Mas acabou retornando após um ano, pois recebeu a notícia do falecimento de sua mãe. Aos 15 anos de idade, foi trabalhar na casa dos Kirsch (localizada na mesma Rua onde mora atualmente) onde ficou até casar aos 28 anos de idade.

Vó : “Ser empregada não é bom. Na época, não era empregada, era criada. Só tinha livre os domingos a tarde”.

Bom, o assunto “trabalho” não durou muito. Minha avó já queria falar dos bailes dos quais participava. Contou que ia a outras cidades como Estância Velha, São Leopoldo e São Sebastião do Caí para se divertir.

Juracy (Irmã mais nova da minha avó), Anita (amiga) e a Vó Dora

Juracy (Irmã mais nova da minha avó), Anita (amiga) e a Vó Dora

Contou também que a Escola de Samba Cruzeiro do Sul (que eu já comentei no blog) possuía comissões temáticas, Minha avó não está nas fotos em grupo pois os bailes ocorreram antes dela nascer.  Mas guarda as fotos com carinho.

Participantes da comissão "Não Saímos Daqui", da Escola de Samba Cruzeiro do Sul (por volta de 1920's)

Participantes da comissão “Não Saímos Daqui”, da Escola de Samba Cruzeiro do Sul (por volta de 1920)

Foto da comissão de frente "Não Bebe Nada", por volta de 1920.

Foto da comissão “Não Bebe Nada”, por volta de 1920.

Depois, tentei iniciar o assunto racismo de maneira leve, mas as respostas foram duras.

Eu: E como tu era tratada aqui em Novo Hamburgo?

Vó: “Faziam ‘pouco caso de nós’. No antigo Café Paulo ou na loja Cavasotto éramos atendidos por último ou nem éramos atendidos, íamos bem vestidos, com roupas bem novas por causa de uma água ou uma agulha. E quando teve o primeiro cinema de Novo Hamburgo os negros sentavam em lugar separado e não podiam sair dali. Mas teve um moço negro chamado Armando Malaquia que sentou no setor que era proibido. Mas só ele sentou, porque a fileira inteira ficou vazia. Desde então, sentamos lá em baixo e ninguém impediu”.

“Lembro, também, que não haviam muitos salões de beleza em Novo Hamburgo. Tinha a Dona Gersa que nos atendia no horário do meio-dia a portas fechadas, porque ela dizia que as clientes não podiam nos ver lá. Na Catedral São Luiz, haviam dias diferentes para que negros, brancos ricos e brancos pobres pudessem rezar missas…”.

(Enquanto redijo a matéria, toca no meu player a música Skin Deep, do Buddy Guy, cujo verso que me chama atenção é: “Just like you can’t judge a book by the cover we all gotta be careful how we treat one another”. Ironia do destino. E do music player).

Tradução: “Assim como você não pode julgar um livro pela capa nós todos temos que ter cuidado como tratamos um ao outro”

Em uma hora de entrevista, peguei dados interessantes e os inseri neste post. Dei nome aos bois”, procurei não esconder o que ouvi. Mas para finalizar, fiz mais uma pergunta:

Nesses 90 anos de vida, tem algum fato que marcou muito a tua vida?

Vó: “Quando retornei à Novo Hamburgo, após a morte da minha mãe, meu irmão estava morando em nossa casa, mas com meus tios. Minha irmã mais nova, Juracy, se desentendeu com minha tia e saiu de casa. Ela foi morar com uma prima e quando voltei fui com ela também. Preferi isso do que ficar brigada com a minha irmã”.

Com certeza, foi a entrevista mais difícil que já fiz. Mas foi com a pessoa que mais amo no mundo!

Leitor, veja que no post inteiro repeti muito a palavra trabalho. Pois é a palavra que minha avó conhece bem e pode até ser considerada seu nome do meio. Mas pode acrescentar outra: orgulho. Orgulho de uma família inteira, que está em pé graças a uma pessoa que suou muito para chegar até aqui e que agora faz com que os descendentes sonhem e cheguem onde quiserem.

Comemoramos o aniversário dela na casa onde ela mora desde os 28 anos de idade. A festinha teve direito a balões, bolo e muitos presentes.
Ah, quer saber o que ela pediu ao soprar as velhinhas? Bom, isso foi dito em off.
Sabe como é, né? Sigilo entre repórter e entrevistada.

Abaixo, o som do músico Bill Withers, título deste post.

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