Meu músico favorito não se chama Bob Dylan

Surpresos, hein?  É, pois é, eu comecei a ouvir Bob Dylan há uns 3 anos. E, sim, ele continua sendo um dos ídolos que mudaram minha vida e, com certeza, um dos mais importantes. Mas há um músico que eu acompanho há mais tempo, mais ou menos 18 anos.

João Ranolfo da Silva, Darço, para os mais chagados, nasceu em 17 de maio de 1922, em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Em uma terra em que predomina habitantes de descendência germânica e italiana, para um homem negro não era tudo tão fácil, bem difícil, na verdade.

Ele trabalhou 40 anos em um curtume da cidade, constituiu uma bela família e possuía uma habilidade especial: um talento musical ímpar.

Participou da Banda Municipal Arlindo Ruggeri por muitos anos tocando tambor e levando alegria a quem estivesse lá para prestigiá-los. Era, também, baterista de bailes e foi um dos fundadores de uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade E.S. Cruzeiro do Sul, onde era possível que negros e brancos pudessem se divertir, sem restrições. A Sociedade está aberta até hoje.

Seu pai, Alfredo Antônio da Silva, era trompetista e tocava em orquestras e seu primo, que viria ser o sogro de Darço, João Fernandes, tocava pistão.

Ou seja, a música sempre esteve presente em sua vida, o que liga a um fato importante: uma pesquisa realizada em fevereiro deste ano.

A Universidade de Helsinque, na Finlândia, e a Academia Sibelius, na mesma cidade, conduziram um estudo examinando a base biológica do ato de se escutar música. A pesquisa contou com 437 participantes de 31 famílias diferentes, com idades entre 8 e 93 anos, com diversas formações na área – desde músicos profissionais até pessoas sem nenhuma educação musical. Para examinar melhor os hábitos, as audições ativa e passiva de música foram definidas separadamente e mapeadas segundo um questionário. Audição ativa foi definida como escutar música atentamente, o que inclui ir a shows e concertos. A passiva foi definida como música se escuta como um pano de fundo.

A média semanal de audição ativa foi de 4 horas e 36 minutos, enquanto a da passiva foi de 7 horas e 18 minutos. Os participantes foram testados em sua aptidão musical em três testes diferentes e cederam amostras de sangue para um exame de DNA. O estudo é um dos primeiros a analisar as variações no gene do receptor de vasopressina 1ª (AVPR1A), levando a música em consideração. Esse gene está ligado à comunicação social e ao comportamento em grupo nos seres humanos e também em outras espécies. Por fim, os resultados obtidos sugerem que existe contribuição biológica para a percepção do som (…) a música na comunicação social, geram ferramentas para futuros estudos envolvendo genética e música.”

Fonte: site G1.

Portanto, os descendentes destes dois homens, anteriormente citados, devem ter uma percepção musical semelhante aos seus antepassados, não necessariamente sabendo tocar algum instrumento. Então, apresento-lhes meu avô e meus bisavôs.

Sendo uma das representantes da quarta geração desta família, sinto-me afortunada por ter herdado “os genes musicais” deles. Mesmo não tendo os conhecido da maneira que gostaria não pude deixar de notar o quão rica é minha “árvore genealógica musical”. Por falta de dados, não tenho como saber como isso iniciou, mas sei que posso mostrar como continuará.

 Durante os 7 anos que convivi com meu avô, o amor sempre esteve muito presente. Aquelas manhãs de domingo ouvindo sua vitrola reproduzir Bezerra da Silva estão em minha mente até hoje. A família procura preservar a riqueza que foi deixada e aos poucos, ir me aproximando da época que não vivi, e também me aproximar do avô que por tão pouco tempo convivi.

Bombo

Tambor

Uniforme da Banda Municipal 

Estes não são apenas objetos deixados de lado em cantos da casa. São lembranças que estão guardadas onde seja menos doloroso de ver. Onde seja menos doloroso de lembrar, pois quando ele se foi os domingos não foram os mesmos. O perdemos lentamente. Sem que pudéssemos fazer algo. Mas a alegria e o bom-humor estiveram com ele até os últimos momentos.

Imagino se havia algum baterista que lhe fosse referencia como Al Jackson, Jr., Rashied Ali… Me pergunto sobre seu conhecimento musical, seus gostos e inspirações. Questiono se gostava de Jazz ou de Blues, pois quando vejo as fotos o assemelho com Robert Johnson, suponho que, talvez, o conhecia.

Tanto que ao ver a figura do bluesman, minha mãe perguntou: “Onde encontrou esta foto de seu avô?”

A ideia inicial deste post era contar a história do meu avô, no entanto ao me deparar com documentos, objetos, fotografias e recortes de jornais, senti que não poderia ignorar as marcas deixadas por seus antecessores, mais especificamente as deixadas por seu pai que era conhecido na cidade por sua simpatia. Então, encontrei uma notícia que me comoveu muito, uma nota de jornal de mais ou menos 50 anos onde está impresso um agradecimento de Seu Alfredo.

 Leiam atentamente:

Recorte de Jornal que possui no mínimo 50 anos.

Infelizmente, o autor da matéria é desconhecido

Nenhum desses “famosos-artistas-anônimos” estão introduzidos no Rock And Roll Hall Of Fame, mas sim no meu coração e de muitos que puderam desfrutar de momentos maravilhosos com eles. Não possuem uma Estrela na Calçada da Fama, mas deixaram suas impressões nas estradas da vida, servindo de exemplo para as próximas gerações. Não ganharam prêmios “Grammy” para deixar expostos na sala, apenas recordações em foto para nos dar aquela gostosa nostalgia ao olhá-las e dizer: “Muito obrigado. Obrigado por não desistir. Obrigado por ser quem foram. Obrigado por serem parte de mim”.

 Nesta árvore, eles são as raízes e eu, extremamente grata por ser um dos frutos.

Agradecimentos especiais à minha família e, em especial, a minha avó Dora e sua memória de ouro.

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4 Comentários

  1. Belo post, Andressa. É,de fato, uma linda história pra se contar =D Se fosse só pela participação na formação do Cruzeirinho, já estaria valendo. O Cruzeirinho é um dos clubes negros mais antigos ainda ativos no estado, e, quem sabe, no país.

  2. Muito obrigada pelo comentário :D

  3. Eduardo Kasper · · Responder

    Bah Andressa, baita post. Teus posts estão cada vez mais maduros. Este em especial está foda.

  4. Sem palavras… bonito post sobre a familia, o amor e a música que nos envolve!

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