Como a coragem de Bob Dylan despertou a minha

Em homenagem aos 70 anos de Robert Allen Zimmerman a.k.a. Bob Dylan

Sim, eu sou fã de Bob Dylan. Adimito! Mas tenho certeza que isso não é surpresa para ninguém. No entanto, na minha faixa etária é algo raro, pois é julgado pelas pessoas como antiquado ou ‘vintage’ ou clássico ou, muitas vezes, chato. Simplesmente, não sigo modismos. Sempre procurei ouvir que o que me desse satisfação, mas nunca pensei que ouviria algo cuja identificação fosse tão grande e que faria eu descobrir tanto sobre mim mesma.

“Yes and how many years can some people exist, before they’re allowed to be free?” A frase da canção ‘Blowin’ In The Wind‘ (The Freewheelin’ Bob Dylan, 1963) chegou aos meus ouvidos como se fosse uma descarga elétrica. Um choque de uma realidade! Pois provém de uma batalha que não havia terminado. E ainda não terminou. E sabemos disso.


Com a tensão racial nos EUA, na década de 1960, o lendário cantor Sam Cooke não gostou do fato de um garoto branco cantar uma música com esse tipo de cunho. No entanto, reviu seus conceitos e até regravou a canção.


Dia 28 de Agosto de 1963, a Marcha de Washington, liderada pelo Dr. Martin Luther King reuniu 250.000 pessoas. Entre famosos e anônimos, que pediam paz, justiça e liberdade, estava um guri, branco, de 23 anos, de Duluth, Minnesota, que também não concordava com as leis segregacionistas. Não só compareceu à marcha, como se apresentou. Cantou “Only A Pawn In Their Game”, “When The Ship Comes In” e “Keep Your Eyes on the Prize”, juntamente com Joan Baez e Len Chandler, que ecoaram sobre a multidão.

E em 2 de julho de 1964, a Lei de Direitos Civis de 1964 foi decretada. Liberdade e igualdade à todos.

Outro fato importante: o álbum ‘Desire’ de 1976 possui uma faixa chamada Hurricane, composta com o intuito de ajudar o pugilista Rubin “Hurricane” Carter que foi preso e condenado por um homicídio que não cometeu. Transferiram Carter para uma grande penitenciária feminina e, lá, foi feito um concerto em prol do lutador.

Campanha de Bob Dylan contra a prisão de Hurricane (1975)


Extra do documentário ‘Bob Dylan: The Jesus Years

Após apelações em Corte, apoio da comunidade entre outras contribuições, Carter foi solto em novembro de 1985.

Na prisão, Rubin Cater recebe a visita de Bob Dylan

Agora, cito rapidamente estas canções, baseadas em fatos reais, que representam a indignação da população

George Jackson(Single, 1971)

Canção feita após a morte de George Jackson, militante dos Direitos Civis.

Only A Pawn In Their Game‘ (The Times They Are A-Changin‘, 1964)
Composta após a morte de Medgar Evers, militante dos Direitos Civis.

The Lonesome Death Of Hattie Carroll (The Times They Are A-Changin, 1964‘)
Gira em torno do assassinato da atendente de bar afro-americana Hattie Carroll, que após vários xingamentos racistas de um cliente, foi morta por ele. Pena: 6 meses de prisão e multa de U$S 500,00.

A Hard Rain’s A-Gonna FallThe Freewheelin’ Bob Dylan, 1962)

“I met a white man, he walked a black dog/and I met a young woman whose body was burning” , trechos que descrevem a conturbada relação racial nos EUA, na década de 1960, leis de segregação e o constante linchamento de negros no Sul do país.

Introduzido no Rock And Roll Hall Of Fame em 1988

Nunca se auto-intitulou um cantor de protesto. Apenas escrevia o que sentia e  o que achava certo. Seguia seu instinto. Sem mais. Acredito que o álbum Highway 61 Revisited (1965) seja a prova disso, uma transição para o Folk-Rock, um tanto quanto inesperada, ousada e bem montada. Mesmo sendo chamado de Judas ou traidor pelo público, ‘he played fucking loud!’

Trecho do documentário ‘No Direction Home’


Não posso ler mentes. Não posso prever o que está por vir. Não posso voltar ao passado, mas posso pesquisá-lo a fundo. E fazendo isso, pude construir meu futuro, baseando-me em suas canções, que não são apenas um punhado de palavras jogadas ao vento. As canções representam as vozes dos que não podiam ser ouvidos. Este homem que é porta-voz de uma geração muito anterior a minha, se faz presente em minha vida como se eu tivesse vivido naquela época. Com o perdão do clichê, digo que os tempos estão mudando. Mas estas mudanças não ocorrem da noite para o dia, pois cabe a cada um sentir a intensidade desta mudança. “Que sejamos a mudança que queremos ver!”

Há dois anos fiz um teste vocacional cujo aplicador era um respeitado Professor. Nunca tive dúvidas de que queria fazer Jornalismo para ter um contato mais direto com a música (Blues, Rock, Jazz, R&B, Soul…) que possui raízes negras muito fortes, o que me interessa profundamente. Mas apenas esperava que o teste estivesse de acordo com o que tanto almejava. O teste possuía três páginas: a primeira tinha perguntas “tensas” do tipo  “quem é você?” , a segunda e terceira páginas continham perguntas que resultavam em gráficos doidos que eu tinha certeza que não significavam nada. E após, quase, quatro horas de teste, fui conferir meu resultado. Via que ele simplesmente confirmava o curso das pessoas. Sem comentários posteriores. A aflição tomou conta de mim.

-“Qual é o curso?” – perguntou-me o professor.

-“Jornalismo.” – respondi à ele, com as mãos tremendo.

-“Hmmmm” – resmungava ele, o que me deixava cada vez mais nervosa. Após um breve pausa, contou o resultado e rabiscou o gráfico. – “Você será aquela Jornalista que falará. E não vai ter medo de falar”

De repente, fui tomada por uma sensação de surpresa, depois um alívio. Seguido de um sentimento de coragem, que nunca tive antes. Mas de uma coisa tenho certeza: a “culpa” é daquele menino branco de Duluth, Minnesota.

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4 Comentários

  1. Post MA-RA-VI-LHO-SO! *-*
    A cada dia que passa, tu escreve melhor, girl!
    Não digo “escrever” no sentido literal, nisso tu sempre te saiu muito bem. Digo no sentido de saber se expressar e emocionar o leitor, e foi exatamente o que aconteceu enquanto eu lia este post. Tu que me apresentou a várias bandas pelas quais hoje eu sou apaixonada, com o Bob Dylan não foi diferente. Mas não fica com ciúmes, ele sempre vai ser o TEU Dylan! ;D
    Como já te disse mil vezes e vou continuar repetindo, estou MUITO orgulhosa de ti e MUITO feliz por ti, my best bitch eveeeeer! You deserve just the best things in the world, and you’ll get it!!!
    Kisses, love you, girl <3

  2. Como um velho admirador de Dylan e estudioso da sua obra e dos anos 60, fico feliz que uma nova geração o encontre e o escute. Você mandou muito bem!Dylan é o cara!
    Eu não vivi pessoalmente os anos 60, mas sua descoberta na minha adolescência “fez a minha cabeça” e me ajudou a ter um norte! Parabéns pelo texto!

    1. Muito obrigada pessoal =D
      Abraço!

  3. Acabei de ler o teu blog, nem sei direito o q te dizer, acho q explico melhor dizendo q eu estou com lagrimas nos olhos. Só n sei se é pela alegria de saber q um cara como ele existe ou se é de orgulho por eu ter uma amiga tão “foda” capaz de transmitir em palavras o q sente por um idolo,mostrando o quão importante ele é, fazendo as pessoas q lerem se emocionarem e mostrando q uma pessoa só, pode siim, melhorar o q tem de errado no mundo.Tenho certeza q ele é uma dessas pessoas, e se ele conseguiu influenciar tantas pessoas, em uma epoca em q a descriminação racial era tão forte, tenho certeza de q cada vez mais pessoas vão aprender a questionar as injustiças e a n ficarem caladas diante de tanto preconceito.
    Quero dizer p ti continuar sempre escrevendo o q sente, pq só assim vai poder mostrar a todos a pessoa tão especial q é, e emocionar como me emocionou.
    Bjos

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